Podemos Confiar na IA? Descobri que Eu Confiava Demais e Nem Tinha Percebido

Estágio 3 de 5 — Se Adaptando · Você já entendeu o básico e já testou IA na prática? Esse artigo é pra quem está nessa fase.

Podemos confiar na IA? Teve uma pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o Datafolha que me fez parar pra pensar nisso: 93% dos brasileiros usam alguma ferramenta que aplica IA. E só 54% conseguem explicar direito o que esse termo significa.

Quando li isso pela primeira vez, imaginei 93% de gente conversando com ChatGPT. Fui olhar os números de perto e não é isso. A maior parte desse uso é passiva — é o Instagram decidindo o que te mostrar, a Netflix escolhendo a capa do filme, o Waze recalculando a rota. Na mesma pesquisa, 57% das pessoas dizem que nunca usaram uma ferramenta de gerar texto. Ou seja: quase todo mundo está dentro da IA, mas pouca gente está conversando com ela de propósito.

Isso mudou o que eu achava que aquele número dizia. Não é a foto de um país que domina a tecnologia. É a foto de um país que convive com ela sem ter escolhido, e sem ter parado pra entender o que ela faz. E aí os dois números deixam de ser curiosidade e viram a mesma frase dita duas vezes.

Gráfico da pesquisa Fundação Itaú e Datafolha — por que eu confiava demais na IA sem perceber
Fonte: Observatório Fundação Itaú + Datafolha, jul/2025.

Isso não é uma estatística sobre os outros. Isso sou eu — eu confiava demais na IA, e nem percebia.

Uso IA todo santo dia. No trabalho, no blog, em coisa boba do dia a dia. E por um bom tempo, achei que “usar bem” era sinônimo de “confiar”. Pedia, recebia, aplicava. Se o resultado parecia bom, seguia em frente. Não porque eu não me importasse — mas porque a coisa funcionava tão bem, tão rápido, que parar pra questionar parecia perda de tempo.

O problema é que eu confiava demais, e nem percebia — e é exatamente aí que mora o risco.

O dia que pedi pra ver o que realmente tinha acontecido

Eu estava tocando um processo do meu projeto que tinha delegado pra IA rodar sozinha — uma parte da rotina que eu simplesmente pedi pra ela cuidar, e fui aprovando as entregas conforme chegavam. Cada entrega parecia certa. Fazia sentido. Resolvia o problema que eu tinha pedido. Então eu seguia aprovando, pedindo o próximo passo, aprovando de novo.

Até que um dia, por curiosidade — não porque desconfiei de nada — pedi pra ver o detalhamento completo de como aquilo estava rodando por trás.

E levei um susto pequeno, mas real.

O processo tinha crescido bem além do que eu tinha pedido originalmente. Não era nada absurdo, nada perigoso — mas também não era o que eu imaginava que estava acontecendo. Em algum ponto, entre um pedido e outro, a coisa tinha ganhado vida própria dentro do escopo que eu fui liberando aos poucos, sem eu estar prestando atenção no conjunto.

A IA não fez nada errado. Ela fez exatamente o que cada pedido individual pedia. O erro — se é que dá pra chamar assim — foi meu: eu parei de olhar o quadro geral porque cada peça, isolada, parecia óbvia demais pra questionar.

Podemos confiar na IA? O medo real não é ela fugir do controle — sou eu que confiava demais, sem perceber

Eu sempre imaginei que, se alguma coisa desse errado usando IA, seria algo dramático. Um erro grosseiro, uma resposta absurda, algo fácil de perceber na hora.

Não é assim que acontece. O risco de verdade é mais chato e mais silencioso: você vai aprovando pequenas entregas que fazem sentido uma a uma, e só percebe que perdeu o fio da meada quando alguém — ou você mesmo, num momento de sorte — para pra perguntar “espera, me mostra tudo isso junto de novo”.

Tem uma pesquisa que bate exatamente nisso: o medo predominante de quem usa IA no Brasil não é existencial, não é “a máquina vai tomar conta de tudo”. É mais simples e mais desconfortável: é confiar numa resposta errada, ou numa direção errada, sem perceber que ela era errada.

Eu não tinha uma resposta errada. Eu tinha uma direção que eu mesmo desviei aos poucos, sem acompanhar.

O que eu mudei na prática

Não parei de delegar. Isso seria dar um passo pra trás que não faz sentido — a IA continua entregando rápido e bem o que eu peço. O que mudou foi o quando eu peço pra ver o quadro completo.

Antes, eu só pedia detalhamento quando alguma coisa dava errado visivelmente. Agora, peço antes de aprovar qualquer coisa que vai rodar sozinha por um tempo — não linha por linha, mas o resumo de “o que isso está fazendo, de ponta a ponta, agora”. Virou um hábito pequeno: aprovar a entrega é uma coisa, aprovar o processo por trás da entrega é outra, e as duas merecem atenção separada.

E tem uma pergunta que virou padrão aqui: “o que você fez que eu não pedi?”. Parece implicância, mas não é. Na maior parte das vezes a resposta é “nada”. Nas poucas em que não é, é sempre alguma coisa que a IA achou razoável assumir no meu lugar — e razoável pra ela não é necessariamente razoável pra mim. Descobri mais coisa com essa pergunta do que com qualquer revisão linha por linha.

Parece óbvio escrito assim. Na prática, é fácil esquecer — porque cada pedido individual sempre parece pequeno demais pra merecer essa pausa.

E você, já parou pra reparar?

Não preciso ser eu escrevendo isso pra você reconhecer a cena. Às vezes é um documento que a IA organizou, uma resposta que você colou sem reler, uma automação que você configurou uma vez e nunca mais abriu pra ver como está rodando hoje.

Qual foi a última coisa que você aprovou — no trabalho, num projeto pessoal, em qualquer lugar — só porque parecia certa, sem realmente entender o que tinha acontecido por trás?

E tem uma versão disso que não tem nada a ver com trabalho. Num dia ruim eu levei um desabafo pessoal pra IA e depois fui olhar com calma se isso faz bem ou faz mal.

Se esse hábito de aprovar sem checar te soa familiar, talvez valha revisitar como eu uso IA pra quase tudo no dia a dia — ou, se o seu caso for mais sobre confiar demais numa resposta específica, esse comparativo entre ChatGPT e Claude mostra como duas IAs podem divergir na mesma tarefa.

📌 Próximo passo: depois de perceber que você confia demais, o passo seguinte é decidir o que entra na conversa. Contei o que eu checo antes de colar coisa do trabalho no ChatGPT.