Aprendi contratos públicos em 3 dias com o ChatGPT (e eu sou gestor de TI, não advogado)

Estágio 4 de 5 — Testes Práticos · Você já sabe usar IA no dia a dia e quer ver prova real de que funciona em algo difícil? Esse artigo é pra essa fase.

Você já ficou numa reunião concordando com a cabeça enquanto por dentro estava implorando para ninguém te perguntar nada?

Eu fiquei assim por um bom tempo toda vez que o assunto era a Lei 14.133. A nova lei de licitações e contratos públicos. Aquela que substituiu a Lei 8.666 em 2021 e que, na teoria, eu precisava entender porque trabalho com gestão de contratos de TI numa grande empresa de energia.

Na prática, cada vez que o tema aparecia numa reunião, eu balançava a cabeça num ritmo de “sim, claro, faz todo sentido” enquanto internamente estava completamente perdido.

Isso durou até eu resolver usar o ChatGPT de um jeito diferente. Não pra ele me dar a resposta. Pra ele me ensinar.

O problema com contratos públicos é a linguagem

A Lei 14.133 tem mais de 180 artigos. Cada um deles tem incisos, parágrafos e remissões pra outros artigos. Ler na sequência é como tentar aprender a nadar lendo um manual técnico de hidrodinâmica.

Fora isso, tem um vocabulário próprio que parece criado pra confundir: dispensa de licitação, inexigibilidade, pregão eletrônico, habilitação, homologação. Cada palavra tem um significado técnico específico que não é o que você imagina pelo senso comum.

Eu sou profissional de TI. Já trabalhei em segurança da informação, coordenação de service desk, e hoje gerencio contratos de tecnologia. Aprendo coisas técnicas o tempo todo. Mas lei? Sempre pareceu um bicho diferente.

Conversa com ChatGPT explicando a Lei 14.133 para gestor de TI

O que eu tentei antes (e não funcionou)

Antes de usar IA, tentei duas abordagens clássicas.

A primeira foi ler um resumo no Google. Achei uns 15 textos explicando “as principais mudanças da Lei 14.133” que, no fundo, repetiam as mesmas cinco informações superficiais que não me ajudavam a entender o que aquilo significava no dia a dia.

A segunda foi pedir pra um colega da área jurídica me explicar. Ele foi super solícito, falou por 20 minutos, e saí da sala sabendo menos do que entrei — porque ele falava em juridiquês fluente e eu precisava de legenda.

O método que funcionou: professor particular às 23h

A virada foi quando parei de tratar o ChatGPT como um buscador e comecei a usar como professor.

A diferença é sutil, mas muda tudo.

Num buscador você digita a dúvida e recebe uma resposta. Com um professor, você vai construindo o entendimento passo a passo, pode interromper, pedir de novo com outras palavras, dizer “não entendi” sem vergonha.

Montei uma sequência de prompts que usei ao longo de três dias, uns 30 a 40 minutos por noite. Vou te contar como foi.

Dia 1: entender a estrutura antes de qualquer detalhe

Comecei com um prompt simples:

“Você é um professor de direito administrativo explicando a Lei 14.133/2021 pra alguém que trabalha com TI e nunca estudou direito. Me dê uma visão geral do que essa lei regula e por que ela substituiu a Lei 8.666. Use linguagem simples, sem juridiquês.”

O resultado foi uma explicação de uns 5 parágrafos que, pela primeira vez, fez sentido pra mim. Entendi o propósito geral da lei, o contexto histórico e por que ela importava pra quem trabalha com contratos.

Mas aí vem a parte que faz diferença: não parei aí.

Toda vez que aparecia um termo que eu não entendia, perguntava na hora. “O que é exatamente ‘fase interna da licitação’? Me dá um exemplo do mundo real.” O ChatGPT respondia, eu conectava com situações que já vivi no trabalho, e o conceito ficava.

Dia 2: os termos que aparecem toda semana nas reuniões

No segundo dia, fui direto nos termos que eu mais ouvia e menos entendia.

Fiz uma lista dos que me travavam — dispensa, inexigibilidade, pregão, credenciamento — e pedi pra ChatGPT explicar cada um com um exemplo prático de TI.

“Explica a diferença entre dispensa de licitação e inexigibilidade usando exemplos de compra de software ou serviço de TI numa empresa.”

Esse prompt sozinho resolveu uma confusão que eu carregava fazia meses. Com exemplos do meu próprio setor, a diferença ficou óbvia. Dispensa é quando você poderia licitar mas a lei te permite não licitar (valor baixo, emergência). Inexigibilidade é quando a licitação é impossível — só existe um fornecedor pra aquilo específico.

Simples assim. Mas ninguém tinha me explicado dessa forma antes.

Dia 3: simulei situações do meu trabalho real

No terceiro dia, mudei a abordagem. Em vez de continuar aprendendo teoria, trouxe situações que aconteceram na empresa e pedi pra entender o que a lei dizia sobre elas.

“No meu trabalho, precisamos contratar uma consultoria de segurança da informação que só tem uma empresa no Brasil com a certificação exigida. Como isso se encaixa na Lei 14.133? É inexigibilidade? Como justificamos?”

Não estou pedindo assessoria jurídica aqui — estou usando um caso concreto pra entender o princípio. A resposta me deu o raciocínio por trás da situação, não só a regra.

Fiz isso com mais três ou quatro casos reais. No final, comecei a entender a lógica da lei, não só os artigos.

O que mudou depois dos três dias

Na próxima reunião sobre contratos, eu não só entendi o que estava sendo discutido: contribuí com uma dúvida pertinente sobre a fase de habilitação num processo que estávamos acompanhando.

Quem estava na sala achou que eu tinha estudado o assunto há meses.

Não vou exagerar: não virei especialista. Continuo precisando de suporte jurídico pra situações complexas, e o ChatGPT cometeu alguns deslizes técnicos que eu só percebi depois confirmando com fontes oficiais. Em direito, detalhe importa, e IA erra.

Mas para entender o suficiente pra funcionar no dia a dia, três dias funcionaram.

O que eu aprendi sobre aprender com IA

IA não substitui o especialista. Mas ela pode te transformar de analfabeto funcional em alguém que entende o suficiente pra fazer as perguntas certas.

Se você chegou aqui sem muito contexto de como a IA funciona, vale dar uma olhada em o que é IA afinal — explico do zero, sem jargão, antes de se aventurar em prompts mais elaborados.

Também uso IA pra outras situações do trabalho, algumas bem mais corriqueiras — 5 coisas que pedi pra IA fazer por mim essa semana tem uns exemplos que podem te surpreender pelo quanto são simples e úteis.

Quer aprender a usar o ChatGPT assim no seu trabalho?

Se o que te travou nesse texto foi o “mas como eu construo esses prompts?”, esse é exatamente o tipo de coisa que um curso focado em uso prático de IA resolve. Não é teoria de machine learning — é metodologia de uso.

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Conclusão: o segredo não está na ferramenta

Olhando pra trás, o que funcionou não foi o ChatGPT em si. Foi a abordagem: começar pela estrutura, depois os termos, depois os casos reais.

Qualquer bom professor usa essa sequência. O ChatGPT me deixou ter esse professor disponível quando eu precisava — às 23h, sem julgamento, com paciência infinita pra explicar de novo.

Se você tem algum assunto no trabalho que você “passa por cima” em reuniões e que deveria entender melhor: esse é o melhor investimento de 30 minutos que você pode fazer essa semana.

Tem algum assunto no seu trabalho que você usa o ChatGPT pra entender melhor? Fico me perguntando se essa abordagem de “professor particular” funciona em outras áreas também.


Próximo passo: depois de ver a IA resolvendo um problema real e difícil, o próximo nível é ir além do dia a dia — automação, projetos maiores. Esse conteúdo mais avançado está virando capítulo de um material à parte. (Em breve.)